Não que eu trabalhe pouco, mas acabei de arrumar outro emprego. Na realidade, voltarei a fazer uma das coisas que mais gosto: dar aulas.
Lá pelos anos de 1996 eu comecei a dar aulas de informática básica em algumas escolinhas particulares em Boa Vista-RR. Tinha 18/19 anos na época e logo notei que herdei esse dom do meu pai.
(Parênteses gigante)
Meu pai, além de ter trabalhado por 40 anos como mecânico de aviões, é também um dos melhores professores que já existiu em RR. Ok, posso ter exagerado, mas o pai é meu e eu o elogio como quiser.
Meu pai é da primeira turma de professores do então Território de Roraima. Sim, ele é bem antigo mesmo.
(Fecha o parênteses)
E lá estava eu, indo de bike pra escola dar aulas para funcionários públicos que mal sabiam o que eram os tais “terminais”, os nossos computadores de hoje. Naquela época a Internet mal existia no Brasil, quem dirá em BV. Mas o governo municipal notou que precisava dar uma reciclada nos funcionários mais antigos, afim de deixá-los craques em Windows/Word/Excel. Foi aí que eu entrei.
Ganhei meu primeiro computador com uns 17 anos e apesar das brigas e disputas pra mexer nele com o meu irmão mais novo, no fim a gente até que se deu bem e hoje os dois ganham a vida mexendo nessas incompreensíveis máquinas.
Lembro que fiz um curso com vídeo-aulas. O curso foi grátis e de 60 pessoas no final só restava eu. Confesso que o curso foi meio chato e por muitas vezes eu dormi. Mas ele foi o pontapé inicial para eu me apaixonar por esse universo.
Voltando às aulas. Antes de virar professor da tal escolinha eu tive que concorrer à vaga com outros professores. Claro que eles tinham mais experência e estavam até mais bem vestidos que eu. Fiquei com vergonha um momento e achei que não iria rolar. Mas sabe quando você fica tão à vontade de fazer uma coisa que parece que você nasceu pra isso? Foi isso que aconteceu na minha audiência de seleção. Fiz bonito e fui contratado. Peguei a bike e voltei feliz pra casa.
Eu dava aulas pela manhã. Duas turmas, das 08 às 10 e das 10 às 12. Saía de lá, ia pra casa, comia e pedalava até a Escola Técnica, onde cursava Eletrotécnica. Já imaginaram que eu devia ser um palito de magro de tanto andar de bike né? Pois eu era. Diziam até que se batesse um vento e minhas orelhas (que não são pequenas), pegassem o vento de frente eu voaria, igual ao Dumbo, hehe. (Isso foi um trauma de infância).
Ensinar pessoas que estão acostumadas a fazer o trabalho com uma máquina de datilografar, ou pior, à mão, é complicado. Alguns eu tinha a certeza que iriam se dar muito bem, mas outros, coitados, tinham que ter uma atenção toda especial. O problema nesses cursos é o tempo. Não dá pra parar tudo porque dois ou três alunos não estão conseguindo acompanhar de jeito nenhum. Acho que fiz o melhor.
Tanto é que fizeram até uma festinha de despedida para mim. Fiquei tão lisonjeado, lembro que ganhei um perfume e um cartão com a assinatura de todos os alunos. Se eu fosse mais gordo um pouco, com essa quantidade de líquido que tenho hoje, acho até que teriam rolados algumas lágrimas.
E fiquei nessa de dar aulas por alguns anos. Era um dinheiro que vinha em ótima hora. Pagava o inglês e as baladas, claro. Os nerds também bebem e saem. Tá, nem todos os nerds, mas eu sim.
Arrumei outros empregos que pagavam melhor e saí dessa vida. Depois vim embora para Manaus e descobri que dar aulas realmente não dá dinheiro no Brasil. Mesmo assim ainda dei um treinamento na PRODAM uma vez. E ano retrasado tive que pagar o estágio em docência do mestrado e voltei a dar aulas. E não é que ganhei um cartão de presente novamente? hehe.
O interessante em ser um professor jovem (e com essa minha cara de moleque ainda), é que as pessoas sempre desconfiam que você seja tecnicamente bom. Elas não acreditam que uma pessoa jovem, ou que aparenta ser jovem, pode ter a manha de dar aulas. Sempre senti isso e também já pensei isso de outros professores que tive. Acho que é meio inevitável julgar o livro pela capa.
Quinta passada fui lá na coordenação do curso da faculdade particular que vai me contratar (se a matriz aceitar). Estou sentado esperando ser atendido e encontro um conhecido:
- Opa Anderson! Tudo bem?
- Ow rapaz (não lembrei o nome dele, hehe), tudo bem!
- E aí, tá esperando pra falar com a coordenadora? Algum problema no curso? Posso ajudar?
- Não não, na realidade eu não estudo aqui. É que vim fazer uma entrevista pra uma vaga de professor…
- Ah é? (Sempre rola o espanto). Que legal cara! Boa sorte então. Aqui é muito legal pra trabalhar!
- Legal, vamos ver.
Nem me ofendo mais com a surpresa.
E é isso. Se tudo der certo eu começo na próxima terça e ficarei esse semestre como professor lá. O pagamento não é lá essas coisas, mas é melhor do que um chute no saco.
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